Denúncias das violações do direito à moradia no Rio de Janeiro
proesias reunidas para leitores imaginários
19 de ago. de 2012
7 de jun. de 2012
Descristalização
Descristalizacao 27-28/maio 2011, Londres
(Jonathan Kemp)
Suponha um sistema que consiste em dois recipientes contendo um total de 10 moléculas azuis e 10 moléculas vermelhas. Há apenas uma configuração com a qual as moléculas podem ser arranjadas de maneira que as 10 moléculas azuis estão em um recipiente e as outras 10 estão em outro. Por outro lado existe um grande número de maneiras em que podemos arranjar 5 de cada cor em cada um dos recipientes.
“Entropic View of Computation” in Mead, C., Conway, L., Introduction to VSLI Systems, (Reading, Mass.: Addison Wesley, 1980), p. 366
Descristalizacao foi uma oficina de dois dias e um evento de performance em ambiente fechado que aconteceu no final da primavera 2011 em Londres. Jonathan Kemp (http://xxn.org.uk) and Ryan Jordan (http://ryanjordan.org) conceberam o evento em torno de duas premissas:
1) Que a vida em si inicia-se de cristais aperiódicos (a la Erwin Schrödinger ) codificando infinitos futuros num pequeno número de átomos, a cristalização da carne pelo Capital limita estes futuros ao ponto da exaustão,
2) Se os computadores e os minerais quais estes são feitos são considerados similarmente cristalinos, então a sua descristalização, que é um aumento na sua desordem, é possível através de uma realimentação positiva que irrompe e escala a entropia através de suas estruturas e descamba na sua patologia presente, Capital.
No Dia Um da oficina participantes destruíram placas/componentes de laptops e converteram alguns componentes minerais incluindo cobre/ouro/prata através da execução de vários processos químicos voláteis. Embora atividades como essas sejam muitas vezes projetadas para consolidar o Capital através do uso negentrópico uso de energias roubadas (ciclos de exploração do trabalho como preço “real” do ouro), no Dia dois os participantes da oficina ludicamente transformaram os minerais garimpados em novos arranjos para noite final em um evento de salão com bebidas de ouro/prata e performances em amplificadores com sub-graves.
Operando numa economia de transdução, que é, da transdução de materiais para valor, consumo e energia, retroalimentação aparece como um mecanismo regulatório na aparentemente irrepreensível necessidade do Capital por desenvolvimento. Retroalimentação é o resultado de qualquer relação causal circular que acontece dentro de um sistema, e retroalimentação negativa é onde a ação e seus efeitos retorna ao sistema de forma a ajustar as performances do sistema. O jogo do “animal, mineral, vegetal” (ou “Vinte questões”[1]) é o sistema regulado onde os erros são interrogados para melhorar a performance, e a informação requerida para identificar alguns pensamentos sobre objetos são no máximo vinte bits (de informação).
Este jogo, juntamente com a definição de Cibernética de Norbert Wiener e a definição de “Teoria da Informação” de Claude Shannon entraram em cena pelo fim dos anos 1940, pressentindo sua instalação em todo lugar onde o mise-en-scène do Capital crescia no centro do palco.
O alvo declarado da cibernética é entender o comportamento inteligente dos sistemas focando em sua “comunicação, controle e mecânica estatística, seja na máquina ou no tecido vivo” e estendido para encampar cérebros, “máquinas computantes e sistema nervoso”, todos caracterizados como sistemas auto regulados feitos de redes nodais escaladas. Rapidamente identificando que esta regulação é mais efetiva em passar a informação através do sistema, suas noções fundamentais são fundadas nestas informações, retroalimentação, entropia e ambiente.
Comportamentos futuros seriam ajustados pela retroalimentação da performance com a máxima adaptabilidade para autorregulação e auto reprodução. Os materiais são descontextualizados de qualquer coisa que não seja mecanicamente nodal na modelagem e governança da nava-mãe Terra ( classificação e prazo de validade de alimentos por exemplo) e reciclar é subentendido como um mantra crucial para sustentar a teia desta vida.
À luz de uma nova ecologia, onde os sistemas são agora vistos como menos holísticos e mais dinâmicos, cada mudança numa série de eventos imprevisíveis com relações nodais nunca balanceadas em um estado estável, a modelagem agora incorpora tal dinâmica de mecanismos de retroalimentação positiva como uma parte crucial guiando os circuitos da auto organização (Faça Você Mesmo, Peer 2 Peer, etc.) esquivamente recombinada pelo Capital em uma transdução acelerada daquilo que descontextualiza do valor. Este malefício transcendental, a transcendental dominação material pelo Capital, com seu agenciamento eficiente e crescimento como suas maiores ficções, acelera e renova os lucros reciclando através do abuso de recursos e guia a extensão da não-produção através da cristalização final da Cultura e do Capital juntas, como sujeitos exaustos sucumbindo às florestas cristalinas de JG Ballards , o Mundo de Cristal.
Onde a política deixa um espaço vazio, ainda programa as declinações do universal, e todos os planos de inconsistência são registrados pelo Capital e seus controles mutantes e montagens conectivas, onde os hackers são eminentemente assim que evocam um sentido de “fazer as coisas antes de terem um sentido” - de uma maneira que suas rupturas de curta escala possam propagar o capital anti-delírio , ansioso para colher tais entradas tão livres para a circulação de seu Poder.
Descristalização inicia sem explicação, o que é, uma ideia primal e natural, prontificada em parte por uma desconfiança pessoal. Mas sua não-explicação e não-tradução poderia também ser vista como uma recusa do controle de funções que de outra maneira estaria localizada nestes ciclos de retroalimentações preferidos pelo Capital. Ao invés disso, aquilo que acaba de ir-se e aquilo que acaba de chegar são ambos desconhecidos, sem uma embalagem, ciclo ou outra coisa, e autonomamente suplementar a ontogênese destes em desdobrar um fantasma ecológico através da maçaroca de vários corpúsculos materiais. E nesta coisa de fuçar em “matéria obscura” que da a Descristalização esta dimensão visceral para despedaçar a isometria destes cristais invariantes isto tudo atenta para escalar contra a exaustão Capital de nossos futuros.
Traduzido por Glerm Soares & Fabi Borges.
Nota do tradutor:
[1] “Twenty Questions” era um jogo famoso nos anos 40 nas TVs de língua inglesa (e provavelmente é anterior a isso), onde você vai se aproximando da resposta apenas respondendo “sim” ou “não” a no máximo 20 perguntas. Este mesmo jogo foi usado depois em videogames e outros tipos de jogos, incluindo remakes deste programa.
Drão de pólem
Não são tão grãos
Ou tampouco sãos
Pés de ipês
Plantados em vãos
Com asfalto em pleno parto
Flor do porto entardecia
Tabebuias, flechas e arcos
Morrem trigos, cresce pão
Talvez um dia, decerto dia
Que d'alva semente renascia
6 de out. de 2011
signos
..
Estalo os dedos
tenho
cica
perdi amigos
dolorida
não corro pro pulo aberto
tenho
medo
do carrinho
não nasci na primavera
amor não me credita
..
Estalo os dedos
tenho
cica
perdi amigos
dolorida
não corro pro pulo aberto
tenho
medo
do carrinho
não nasci na primavera
amor não me credita
..
maio
..
Os dois irmãos apontam
a tarde de maio
as pedras cantam maio
os duros homens louvam
tarde de maio
ninguém escuta seus mistérios
todos somos seus atores
tarde demais
..
Os dois irmãos apontam
a tarde de maio
as pedras cantam maio
os duros homens louvam
tarde de maio
ninguém escuta seus mistérios
todos somos seus atores
tarde demais
..
1 de out. de 2011
24 de dez. de 2010
pobresia
6 de nov. de 2010

pré-lançamento do "submidialogia - ideias perigozas"
distribuição livre. leve o livro no pendrive
ou acesse-o na frequência 88.1 FM
debate sobre o livro, rádio aberta para intervenções
músicas, conversas e sussurros
dia 09/11 - terça-feira, às 20h
no morro da conceição (15 minutos da Central)
www.mostre.me/comochegar
Submidialogia é uma ilha de intensidade ultraconectada e alienada ao mesmo tempo, que se repete diferenciando aos poucos seus estilos, formatos e metodologias. É atravessada por séries com evidente inspiração anarquista, punk e por vanguardas artísticas em geral.
Crises,paradoxos, desestruturações subjetivas básicas, mudanças paradigmáticas, alguns momentos de extrema harmonia e outros de discórdia são experimentados nas listas de discussões, nas produções hiper-midiáticas e presencialmente nos festivais.Este livro é uma compilação de artigos, poesias, auto-críticas e outros textos surgidos a partir da quarta edição do festival Submidialogia, realizada em Belém (PA) no ano de 2009.
11 de set. de 2010
Maré e superfície
Maré e superfície
(ou proesias reunidas para leitores imaginários)
Junto os fragmentos estilhaçados ao chão, que não refletem senão cores soltas, atravesso o espelho e cerro os punhos. Fico enredando para não soltar, pois tenho medo de perder. Já perdi. Já soltei e esqueci, fingindo que não sei. Recordo-me de quando nem era. Amargo novamente a dor de ser. Porém, agora encontro-me sentado, em frente ao relógio. Distraído, ajeito-me na lembrança que me sustenta ali, aguardando a campainha tocar. Volto ao começo, já devia ter uns 5 anos quando nasci.
O pé na grama, sol forte, nem senti quando voei rumo aos campos. Os raios batiam sobre a árvore torta que esparramava nua sua sombra no carro batido. O vermelho-fato da família e das frutas. Vermelho não pede calma. Hoje, fico enveredando pelo estranho. Nem sei se sou mais. Queimaduras de terceiro grau no último grão de si insistem em comparecer aos meus óbvios desencontros. Para mim, sou nada, mas não paro de me sentir. E os cúmplices: identidade, foto, nome, cartão de crédito, tudo que diz quem sou. No fundo, deve dar tudo no mesmo. O melhor não se fala. Fica quieto, guardadinho no miúdo.
Levantou-se da poltrona azul, que resmungou sua ausência. Correu para o banheiro e cruzou novamente o espelho, desta vez fitando a si mesmo do outro lado. Caía em si. Mas não estava parado. A permanência é um efeito de superfície, que nem a maré: - Quando lua chega, vai de um lado pro outro. A gente não vê nada, mas quem está fora diz que foi pra frente, foi pra trás. Somos puxados e nem damos conta disso. Só quem é seco pode dizer.
Assim, se fosse. Sairia de casa sem esperar. Deixaria calado para não gritar ou - quem sabe? - nem mesmo pensasse em falar. Mas, dito, aguardo. Arranco os ponteiros do relógio e faço tatuagens sobre a pele. Escorre um fino sangue. Só podemos jogar nossos corpos, seja horizontal ou verticalmente. Eu lanço-o no passado, meu assunto. Saudades de um tempo que nem sei. As almofadas respiraram aliviadas quando encostei minha cabeça flutuante sobre elas novamente. Assim, cansado, para evitar problemas, melhor sesquivar.
Sobre o colo, alisava uma caixa com recordações. Vivia no passado, em si mesmo. Não demorava a tudo parecer como retrato velho, meio manchado. Mas estava lá, vivo, pululando. E vai dizer que cinza que é triste? Cor infeliz é marrom-de-foto-antiga. Vê que nem é cor que existe, assim, por si própria. Só nasce quando algo já não é mais e fica ali, comendo memória. Parasita. Tem mais lástima que isso, não.
Do outro lado da porta, escorava-se um sujeito com a barba suja que, de tanto ser visto, tornou-se invisível para quase todos. Uma vez resolveu conversar, mas ninguém partilhava. As pessoas olhavam esquisito. De viés, menosprezando. “Não tenho dinheiro, nem cigarro, nem nada, desculpa.” E vai pedir perdão? Vivia onde o som é vento (e bala), na vista é seco (e nada) e na barriga fome (e raiva). Egoísta não era. Vez em quando, pegava qualquer-coisa-que-se-mova e absorvia só para vomitar diferente e outro também poder se alimentar. Mas aí nem a comida, nem o faminto são mais os mesmos, devemos concordar.
Desisti de esperá-la. Pego minha arma, coloco-a em um pacote de sanduíches. Estou pronto para encarar as ruas. Mas por onde começar? Se ela está vindo, talvez possamos nos esbarrar pelo caminho, apesar de não lembrar seu endereço. De fato, seria necessário deter-me sobre as íris de cada pessoa para descubrí-la, visto que não lembro de seu rosto e sequer se a conheço de fato. Somente fractais.
Quando saí, o homem de barbas sujas sussurrou como de costume: “Me dê uma moeda? Fique com Deus”. Quase passei direto. O desejo de o encarar para checar seus olhos me deteve na porta por algum tempo, mas neguei-lhe o pedido. De que me valhe um Deus sem uma moeda? Antes ele me pedisse para dar-lhe um Deus e ficar com um trocado, eu prontamente forjaria uma divindade. Mas é preciso que cada um invente seus próprios deuses e demônios.
Sigo guiado por mãos invisíveis pelas veias de uma cidade imaginária. Penso em acender um cigarro, mas me recordo que às quartas não se pode fumar. Ao lado dos palácios, observo um homem a gritar algumas palavras de ordem. Sem roupa e descalço, Ivo seguia enfeitando os orelhões públicos com suas decorações. “Sua camisa ainda não ficou pronta pois ainda não consegui tirar o desenho do seu corpo”. Contorno os jardins lunares da praça central e sigo pelas sinuosas bifurcações que levam aos pés dos Montes. De longe posso ver o grandioso edifício metálico a tocar Deus no céu com seus dedos-antenas. Ao redor dele, milhares de pessoas aglomeram-se caminhando vagarosamente em uma romaria silenciosa. Adentro na multidão e, após alguns empurrões, consigo chegar ao interior do prédio. Em seu teto, estrelas se interligam em constelações auto-reconfiguráveis, formando com seus riscos mutantes um desenho futurista das almas do mundo. Sobre o altar paira o interconector que recebe as ondas cerebrais amplificadas no ar e realiza as interligações, de acordo com o amor ou a repulsa. A dissolução reticular dos pensamentos deixam os presentes em um torpor contínuo. Está comprovado: os corpos fracos conduzem melhor eletricidade.
Passa-se uma eternidade até a duração infinita dos devires possíveis atravessarem meus órgãos por completo. Porém, enfim, consigo empunhar meu revólver e atirar contra o interconector. Em suas frequências, todos agora parecem desorientados e se esbarram como cegos. De volta à era do chip lascado. Com a arma em mãos, caminho em cantos como ser casual, até uma placa luminosa chamar minha atenção e eu entrar no seu prédio antigo e ruidoso. Nele, um espetáculo sem público criava espontaneamente um jogo cênico onde os atores, todos, simulavam a chegada de um estranho à peça. Subitamente, ele se percebia como protagonista de uma trama em espiral. Descobre-se em um grande show com todos os olhos voltados para si.
Enquanto meu guarda-roupa, cama, estante e outros móveis descansam imóveis na natureza formigante e deserta do meu quarto, desci do palco e lancei-me novamente às ruas para buscar minha ilustre desconhecida. Talvez estivesse desenhada em algum dos muros. Não aqueles que ostentam sinais oficiais, mas a parede-comum, tela de gritos pichados em azul cor do céu. Estava novamente calmo, exceto pela estranha sensação de alguém a me observar. Olhos ternos. Tanto faz esta floresta futurista em efervescência, vou esperando, querendo e fotografando paisagens em meu caderno.
Porém, devo admitir que estes são apenas alguns relatos colhidos em um furto poético no correio de desconhecidos. Fatos que nem de longe podem reconstituir o que aconteceu naqueles anos enferrujados ainda por vir. No entanto, minha televisão com auto-definição resolvia aquelas equações de jardins e transmitia, desde já, tudo em primeira mão para mim, que a assistia comodamente na minha poltrona. A monotonia do meu futuro foi interrompida com a campainha. Tomado pelo entusiasmo, levantei-me de sobressalto para abrir a porta. Era o meu vizinho com seu mesmo sorriso largo, bochechas rosadas e a indefectível roupa branca que sempre ofusca minha vista. Como de costume, ele tirou minha temperatura e me deixou dois comprimidos sem nem ao menos se despedir antes de entrelaçar os dedos contra a porta do hóspede ao lado. Sinto ciúmes e inveja do vizinho que agora recebe a atenção do silencioso homem de branco. Deixo a poltrona sugar-me novamente e faço o mesmo com os comprimidos. Vejo tudo tornar-se claro como a Via Láctea.
Acordo de sobressalto e vomito pela janela palavras bárbaras. Fico à espreita. Prefiro ver deitado o teto dos banheiros sujos, enquanto tocadores de liras citam um abecedário ao contrário, que anuncia o mundo justo onde enfim nascerá o homem capaz de ignorar o zunido das coisas quietas aos domingos. Antes isto do que este tédio ruminante, onde tudo pende sobre as horas, as cores e os cheiros. Pego as anotações roubadas, as cartas que não chegaram aos destinatários, todos os pequenos tickets de cartão de crédito, os desenhos que fiz enquanto aguardava a chegada de desconhecidos e minhas roupas. Entulho tudo no guarda-roupa, cercando-o com vinho. Ah, as uvas. Risco um fósforo e lanço-o contra o móvel, revelando sua verdadeira natureza.
Acordo novamente com alguém na porta. Abro-o e entra pálido um anão de aparência cansada. “Desculpe, estive vigiando o senhor pela minha janela”. Suando, ele me carrega até a janela, deixando meu corpo a pender sobre o parapeito como uma pluma leve equilibrada na quina. Então, me aponta os jardins onde polimateias magnas pousavam incessamente nos mananciais, poupando-nos de mais indescrixoráveis dúvidas das divisas entre dentro e fora. Abriram-se suas asas de Hollywood e suas prágoras dilataram e succionaram o pouco rio a filetear a beira dos meus olhos, que fez reterna retina das causas simples as coisas não-vistas no conoitiano fantástico. A angústifania epidermiurgicamente com sumiu as carnes do meu pensaltear em rideias descritas.
(ou proesias reunidas para leitores imaginários)
Junto os fragmentos estilhaçados ao chão, que não refletem senão cores soltas, atravesso o espelho e cerro os punhos. Fico enredando para não soltar, pois tenho medo de perder. Já perdi. Já soltei e esqueci, fingindo que não sei. Recordo-me de quando nem era. Amargo novamente a dor de ser. Porém, agora encontro-me sentado, em frente ao relógio. Distraído, ajeito-me na lembrança que me sustenta ali, aguardando a campainha tocar. Volto ao começo, já devia ter uns 5 anos quando nasci.
O pé na grama, sol forte, nem senti quando voei rumo aos campos. Os raios batiam sobre a árvore torta que esparramava nua sua sombra no carro batido. O vermelho-fato da família e das frutas. Vermelho não pede calma. Hoje, fico enveredando pelo estranho. Nem sei se sou mais. Queimaduras de terceiro grau no último grão de si insistem em comparecer aos meus óbvios desencontros. Para mim, sou nada, mas não paro de me sentir. E os cúmplices: identidade, foto, nome, cartão de crédito, tudo que diz quem sou. No fundo, deve dar tudo no mesmo. O melhor não se fala. Fica quieto, guardadinho no miúdo.
Levantou-se da poltrona azul, que resmungou sua ausência. Correu para o banheiro e cruzou novamente o espelho, desta vez fitando a si mesmo do outro lado. Caía em si. Mas não estava parado. A permanência é um efeito de superfície, que nem a maré: - Quando lua chega, vai de um lado pro outro. A gente não vê nada, mas quem está fora diz que foi pra frente, foi pra trás. Somos puxados e nem damos conta disso. Só quem é seco pode dizer.
Assim, se fosse. Sairia de casa sem esperar. Deixaria calado para não gritar ou - quem sabe? - nem mesmo pensasse em falar. Mas, dito, aguardo. Arranco os ponteiros do relógio e faço tatuagens sobre a pele. Escorre um fino sangue. Só podemos jogar nossos corpos, seja horizontal ou verticalmente. Eu lanço-o no passado, meu assunto. Saudades de um tempo que nem sei. As almofadas respiraram aliviadas quando encostei minha cabeça flutuante sobre elas novamente. Assim, cansado, para evitar problemas, melhor sesquivar.
Sobre o colo, alisava uma caixa com recordações. Vivia no passado, em si mesmo. Não demorava a tudo parecer como retrato velho, meio manchado. Mas estava lá, vivo, pululando. E vai dizer que cinza que é triste? Cor infeliz é marrom-de-foto-antiga. Vê que nem é cor que existe, assim, por si própria. Só nasce quando algo já não é mais e fica ali, comendo memória. Parasita. Tem mais lástima que isso, não.
Do outro lado da porta, escorava-se um sujeito com a barba suja que, de tanto ser visto, tornou-se invisível para quase todos. Uma vez resolveu conversar, mas ninguém partilhava. As pessoas olhavam esquisito. De viés, menosprezando. “Não tenho dinheiro, nem cigarro, nem nada, desculpa.” E vai pedir perdão? Vivia onde o som é vento (e bala), na vista é seco (e nada) e na barriga fome (e raiva). Egoísta não era. Vez em quando, pegava qualquer-coisa-que-se-mova e absorvia só para vomitar diferente e outro também poder se alimentar. Mas aí nem a comida, nem o faminto são mais os mesmos, devemos concordar.
Desisti de esperá-la. Pego minha arma, coloco-a em um pacote de sanduíches. Estou pronto para encarar as ruas. Mas por onde começar? Se ela está vindo, talvez possamos nos esbarrar pelo caminho, apesar de não lembrar seu endereço. De fato, seria necessário deter-me sobre as íris de cada pessoa para descubrí-la, visto que não lembro de seu rosto e sequer se a conheço de fato. Somente fractais.
Quando saí, o homem de barbas sujas sussurrou como de costume: “Me dê uma moeda? Fique com Deus”. Quase passei direto. O desejo de o encarar para checar seus olhos me deteve na porta por algum tempo, mas neguei-lhe o pedido. De que me valhe um Deus sem uma moeda? Antes ele me pedisse para dar-lhe um Deus e ficar com um trocado, eu prontamente forjaria uma divindade. Mas é preciso que cada um invente seus próprios deuses e demônios.
Sigo guiado por mãos invisíveis pelas veias de uma cidade imaginária. Penso em acender um cigarro, mas me recordo que às quartas não se pode fumar. Ao lado dos palácios, observo um homem a gritar algumas palavras de ordem. Sem roupa e descalço, Ivo seguia enfeitando os orelhões públicos com suas decorações. “Sua camisa ainda não ficou pronta pois ainda não consegui tirar o desenho do seu corpo”. Contorno os jardins lunares da praça central e sigo pelas sinuosas bifurcações que levam aos pés dos Montes. De longe posso ver o grandioso edifício metálico a tocar Deus no céu com seus dedos-antenas. Ao redor dele, milhares de pessoas aglomeram-se caminhando vagarosamente em uma romaria silenciosa. Adentro na multidão e, após alguns empurrões, consigo chegar ao interior do prédio. Em seu teto, estrelas se interligam em constelações auto-reconfiguráveis, formando com seus riscos mutantes um desenho futurista das almas do mundo. Sobre o altar paira o interconector que recebe as ondas cerebrais amplificadas no ar e realiza as interligações, de acordo com o amor ou a repulsa. A dissolução reticular dos pensamentos deixam os presentes em um torpor contínuo. Está comprovado: os corpos fracos conduzem melhor eletricidade.
Passa-se uma eternidade até a duração infinita dos devires possíveis atravessarem meus órgãos por completo. Porém, enfim, consigo empunhar meu revólver e atirar contra o interconector. Em suas frequências, todos agora parecem desorientados e se esbarram como cegos. De volta à era do chip lascado. Com a arma em mãos, caminho em cantos como ser casual, até uma placa luminosa chamar minha atenção e eu entrar no seu prédio antigo e ruidoso. Nele, um espetáculo sem público criava espontaneamente um jogo cênico onde os atores, todos, simulavam a chegada de um estranho à peça. Subitamente, ele se percebia como protagonista de uma trama em espiral. Descobre-se em um grande show com todos os olhos voltados para si.
Enquanto meu guarda-roupa, cama, estante e outros móveis descansam imóveis na natureza formigante e deserta do meu quarto, desci do palco e lancei-me novamente às ruas para buscar minha ilustre desconhecida. Talvez estivesse desenhada em algum dos muros. Não aqueles que ostentam sinais oficiais, mas a parede-comum, tela de gritos pichados em azul cor do céu. Estava novamente calmo, exceto pela estranha sensação de alguém a me observar. Olhos ternos. Tanto faz esta floresta futurista em efervescência, vou esperando, querendo e fotografando paisagens em meu caderno.
Porém, devo admitir que estes são apenas alguns relatos colhidos em um furto poético no correio de desconhecidos. Fatos que nem de longe podem reconstituir o que aconteceu naqueles anos enferrujados ainda por vir. No entanto, minha televisão com auto-definição resolvia aquelas equações de jardins e transmitia, desde já, tudo em primeira mão para mim, que a assistia comodamente na minha poltrona. A monotonia do meu futuro foi interrompida com a campainha. Tomado pelo entusiasmo, levantei-me de sobressalto para abrir a porta. Era o meu vizinho com seu mesmo sorriso largo, bochechas rosadas e a indefectível roupa branca que sempre ofusca minha vista. Como de costume, ele tirou minha temperatura e me deixou dois comprimidos sem nem ao menos se despedir antes de entrelaçar os dedos contra a porta do hóspede ao lado. Sinto ciúmes e inveja do vizinho que agora recebe a atenção do silencioso homem de branco. Deixo a poltrona sugar-me novamente e faço o mesmo com os comprimidos. Vejo tudo tornar-se claro como a Via Láctea.
Acordo de sobressalto e vomito pela janela palavras bárbaras. Fico à espreita. Prefiro ver deitado o teto dos banheiros sujos, enquanto tocadores de liras citam um abecedário ao contrário, que anuncia o mundo justo onde enfim nascerá o homem capaz de ignorar o zunido das coisas quietas aos domingos. Antes isto do que este tédio ruminante, onde tudo pende sobre as horas, as cores e os cheiros. Pego as anotações roubadas, as cartas que não chegaram aos destinatários, todos os pequenos tickets de cartão de crédito, os desenhos que fiz enquanto aguardava a chegada de desconhecidos e minhas roupas. Entulho tudo no guarda-roupa, cercando-o com vinho. Ah, as uvas. Risco um fósforo e lanço-o contra o móvel, revelando sua verdadeira natureza.
Acordo novamente com alguém na porta. Abro-o e entra pálido um anão de aparência cansada. “Desculpe, estive vigiando o senhor pela minha janela”. Suando, ele me carrega até a janela, deixando meu corpo a pender sobre o parapeito como uma pluma leve equilibrada na quina. Então, me aponta os jardins onde polimateias magnas pousavam incessamente nos mananciais, poupando-nos de mais indescrixoráveis dúvidas das divisas entre dentro e fora. Abriram-se suas asas de Hollywood e suas prágoras dilataram e succionaram o pouco rio a filetear a beira dos meus olhos, que fez reterna retina das causas simples as coisas não-vistas no conoitiano fantástico. A angústifania epidermiurgicamente com sumiu as carnes do meu pensaltear em rideias descritas.
8 de mar. de 2010
7 de mar. de 2010
3 de out. de 2009
cubículo
Pesada a cabeça caiu do alto dos ombros. Os olhos tocaram no chão. Viu verde o velho carpete. Será ainda macio? O olho de bate-pronto: duro. Subiu com o olho o cheiro empoeirado familiar que a estonteou. A velha massa humana derreteu e pingou como trêmula lembrança. Como a tênue goteira surgia. Nova. Feita a gota poça, fez-se a mulher moleque. Ambas sentaram no verde infinito. Jogou agora os olhos aos céus. Ao teto. E esperou no lugar deles que lançassem de volta as bolas azuis das enormes brincadeiras.
- Devolvam-me!
- Devolvam-me!
5 de set. de 2009
penduricalho
se os ditos nos escapam
não os temos ou temo
ser tudo um pouco aço
como coisa concreta
nada de clarear aos poucos
tampouco descrições breves
regurgitamos recordações
em voz
para des
atados nós
não queremos o sentimento abismo
cohabitamos a pele-dúvida
carne-viva
numa superfície sem fundo
afundo
a angústia à primeira vista
sequer certo de nossas erratas
não façamos contas em tempos retos
mas em um anti-sentimento
expresso
não mais que três ou quatro
palavras ou goles me bastam
para gritar ou acalmar por
acaso
em mim ou no mundo que esquece
suas idas por algumas horas ou para sempre
ignora aquilo dito ou pensado
quando quis o sim ou não
não os temos ou temo
ser tudo um pouco aço
como coisa concreta
nada de clarear aos poucos
tampouco descrições breves
regurgitamos recordações
em voz
para des
atados nós
não queremos o sentimento abismo
cohabitamos a pele-dúvida
carne-viva
numa superfície sem fundo
afundo
a angústia à primeira vista
sequer certo de nossas erratas
não façamos contas em tempos retos
mas em um anti-sentimento
expresso
não mais que três ou quatro
palavras ou goles me bastam
para gritar ou acalmar por
acaso
em mim ou no mundo que esquece
suas idas por algumas horas ou para sempre
ignora aquilo dito ou pensado
quando quis o sim ou não
8 de fev. de 2009
A mesma porta sem trinco, o mesmo teto e a mesma lua a furar nosso zinco.
Outro dia ele me disse algo muito interessante.
E eu escutei porque não tive outra escolha.
Estavámos deitados ali, um ao lado do outro.
Cada um em seu próprio canto de pensações.
Eu no banal: comida, contas, carro, crianças.
Ele...
Disse repentinamente:
- Não vejo porque aguentamos tudo. Quando as coisas acabam, dá-se adeus e segue-se em frente. Fingir por inércia é pior. Dizemos, assim, que não temos força suficiente. O que é uma falácia tão grande que me enjoa.
E num pulo saiu para o banheiro batendo a porta.
Olhei para o lado assustada.
As palavras tomando um formato estranho na cabeça, o barulho constante da porta fechando, o choro que se seguiu agressivo.
Num instante de silêncio.
Mais uma vez a porta abre e junto dela aquele homem desconhecido.
Acho que nunca tinha realmente olhado para ele.
Fatalmente, ele e a lembrança dele se confundiram nos meus olhos embaçados.
O cabelo negro que se tornara grisalho, o cacheado meio hippie que fora substituido por um corte curto disfarçando a calvice; os olhos profundos, com marcas e bolsas de sonos perdidos; o sorriso torto que o torna inegavelmente uma versão mais ironica de si mesmo.
Os sinais do anos agora gritavam bem alto: a barriga das cervejas com os amigos e dos nossos vinhos de domingo, os milhares de pelos brancos espalhados pelos lugares mais inacreditáveis, as mãos enrugadas e pesadas que me acariciavam vagamente a barriga.
Pequenas coisas que antes passavam despercebidas e agora me agradavam tanto quanto um tapa na cara.
Ele abriu e fechou a porta, voltando mais uma vez para a cama.
Arregalou os olhos assustado ao me ver chorando. "O que foi?".
Respirei fundo. No susto:
- Nada. Achei bonito o que você disse. Fez pensar que não podemos levar a vida frouxa. Me abraça, eu te amo.
Eu sei que ele não me compreendeu. Melhor.
Achou que eu estava doida e me abraçou.
A mesma de sempre, mesmo eu também estando mudada.
Que seja! Que ele me pense louca a me pensar sua.
É assim que vamos vivendo bem até o fim dos dias.
E eu escutei porque não tive outra escolha.
Estavámos deitados ali, um ao lado do outro.
Cada um em seu próprio canto de pensações.
Eu no banal: comida, contas, carro, crianças.
Ele...
Disse repentinamente:
- Não vejo porque aguentamos tudo. Quando as coisas acabam, dá-se adeus e segue-se em frente. Fingir por inércia é pior. Dizemos, assim, que não temos força suficiente. O que é uma falácia tão grande que me enjoa.
E num pulo saiu para o banheiro batendo a porta.
Olhei para o lado assustada.
As palavras tomando um formato estranho na cabeça, o barulho constante da porta fechando, o choro que se seguiu agressivo.
Num instante de silêncio.
Mais uma vez a porta abre e junto dela aquele homem desconhecido.
Acho que nunca tinha realmente olhado para ele.
Fatalmente, ele e a lembrança dele se confundiram nos meus olhos embaçados.
O cabelo negro que se tornara grisalho, o cacheado meio hippie que fora substituido por um corte curto disfarçando a calvice; os olhos profundos, com marcas e bolsas de sonos perdidos; o sorriso torto que o torna inegavelmente uma versão mais ironica de si mesmo.
Os sinais do anos agora gritavam bem alto: a barriga das cervejas com os amigos e dos nossos vinhos de domingo, os milhares de pelos brancos espalhados pelos lugares mais inacreditáveis, as mãos enrugadas e pesadas que me acariciavam vagamente a barriga.
Pequenas coisas que antes passavam despercebidas e agora me agradavam tanto quanto um tapa na cara.
Ele abriu e fechou a porta, voltando mais uma vez para a cama.
Arregalou os olhos assustado ao me ver chorando. "O que foi?".
Respirei fundo. No susto:
- Nada. Achei bonito o que você disse. Fez pensar que não podemos levar a vida frouxa. Me abraça, eu te amo.
Eu sei que ele não me compreendeu. Melhor.
Achou que eu estava doida e me abraçou.
A mesma de sempre, mesmo eu também estando mudada.
Que seja! Que ele me pense louca a me pensar sua.
É assim que vamos vivendo bem até o fim dos dias.
5 de fev. de 2009
rasante
!su:#c0n3cTacrte*0101 02@tea7r0v1zv4?
morro porque voo alto na beira ou em cima, errante fluxo de coisas precoces. corro porque belo transponível por outro tipo de carne solta morta em lembranças, vou misturando ao presente na percepção os sentidos que viram consciência premptória em um breve lampejo. como na corda bamba, que enquanto consegue não cair evita bater ao chão sua cara e espalhar o sangue aos pés do patrão, que foge com a recordação de um filme maquínico de metais reluzentes e vis.
d1Gy74n0us14@n0oZf3R4{'0!
morro porque voo alto na beira ou em cima, errante fluxo de coisas precoces. corro porque belo transponível por outro tipo de carne solta morta em lembranças, vou misturando ao presente na percepção os sentidos que viram consciência premptória em um breve lampejo. como na corda bamba, que enquanto consegue não cair evita bater ao chão sua cara e espalhar o sangue aos pés do patrão, que foge com a recordação de um filme maquínico de metais reluzentes e vis.
d1Gy74n0us14@n0oZf3R4{'0!
4 de fev. de 2009
poesia espasmática coletiva
0.3 Aprendendo o enigma das doses
Mexam suas orelhas. Ideias preguiçosas: não faremos nada
Oficinas de nada. Sangre, sue, sorria
Na primeira vez que quis salvar o mundo, me fodi
Quem paga a revolução? Quem revolucionar o pagamento
(Acabaram de passar aqui na frente fazendo um arrastão)
Essa ideia ninguém me tira: matéria é mentira
[Energia livre já: E=mc²]
A vida é uma droga. Não é uma metáfora
mas uma tautologia.
Verves, verves, verves...
0.2 Vértices e vertigens: Artista é o pedreiro
Em meio a tantos vocábulos lineares, fincamos no pasto nossa declaração de independência. Vida de armas, camas e karmas. Eles estão surdos! Ninguém é dono das ideias. O comum pertence à multidão e é regra. Com máquinas de poesia-guerra, a natureza inventou a gratuidade e ela continua sendo re-inventada dentro de um direito que escapa ao Direito: o direito à produção de sentido. Nenhum ser humano é uma ilha desconectada. Como me encantam as reuniões fora de hora...
0.1 Eu e você = nós = tudo e todos
Somos re-combinações. Contra a pilhagem da volúpia,
a volúpia da pilhagem.
Libertação animal, sexo grupal,
rios, pessoas novas,
dar margem a estar na beira
festas e vinho em trânsito,
em transe, em transição.
Co-mova-se. A volúpia destrutiva também é
volúpia criativa
0.0 Livres, nossos filh@s
Soberania gravitacional: pelas livres flutuações, revoguemos a lei da gravidade. Se a criança se desenvolve copiando o mundo que vê, como ensiná-las erroneamente que o processo de aprendizado é crime? Onde está o erro em absorver o mundo? Como ensiná-las a co-governar suas imaterialidades cotidianas? Aquilo que não é vendido e não tem preço. Cada olho pode ser o mundo em uma voz. Observo, absorvo e regurgito uma imersão de novo. Diferente, como sempre.
8: Palindromania: parta do fim para o princípio
Transborde, transporte, transponha os sentidos que subvertem o mundo subumano
Eschizoprana caoeose metempsicóticos
Libertem os pássaros subterrâneos. Cronosfera livre!
Prove, deguste o imprevisível presente
Transborde, transporte, transponha
Prove, deguste, improvise o imprevisível presente. Primo, primeiro
começo
novo
#poesia anônima-coletiva submidialogia#4
Mexam suas orelhas. Ideias preguiçosas: não faremos nada
Oficinas de nada. Sangre, sue, sorria
Na primeira vez que quis salvar o mundo, me fodi
Quem paga a revolução? Quem revolucionar o pagamento
(Acabaram de passar aqui na frente fazendo um arrastão)
Essa ideia ninguém me tira: matéria é mentira
[Energia livre já: E=mc²]
A vida é uma droga. Não é uma metáfora
mas uma tautologia.
Verves, verves, verves...
0.2 Vértices e vertigens: Artista é o pedreiro
Em meio a tantos vocábulos lineares, fincamos no pasto nossa declaração de independência. Vida de armas, camas e karmas. Eles estão surdos! Ninguém é dono das ideias. O comum pertence à multidão e é regra. Com máquinas de poesia-guerra, a natureza inventou a gratuidade e ela continua sendo re-inventada dentro de um direito que escapa ao Direito: o direito à produção de sentido. Nenhum ser humano é uma ilha desconectada. Como me encantam as reuniões fora de hora...
0.1 Eu e você = nós = tudo e todos
Somos re-combinações. Contra a pilhagem da volúpia,
a volúpia da pilhagem.
Libertação animal, sexo grupal,
rios, pessoas novas,
dar margem a estar na beira
festas e vinho em trânsito,
em transe, em transição.
Co-mova-se. A volúpia destrutiva também é
volúpia criativa
0.0 Livres, nossos filh@s
Soberania gravitacional: pelas livres flutuações, revoguemos a lei da gravidade. Se a criança se desenvolve copiando o mundo que vê, como ensiná-las erroneamente que o processo de aprendizado é crime? Onde está o erro em absorver o mundo? Como ensiná-las a co-governar suas imaterialidades cotidianas? Aquilo que não é vendido e não tem preço. Cada olho pode ser o mundo em uma voz. Observo, absorvo e regurgito uma imersão de novo. Diferente, como sempre.
8: Palindromania: parta do fim para o princípio
Transborde, transporte, transponha os sentidos que subvertem o mundo subumano
Eschizoprana caoeose metempsicóticos
Libertem os pássaros subterrâneos. Cronosfera livre!
Prove, deguste o imprevisível presente
Transborde, transporte, transponha
Prove, deguste, improvise o imprevisível presente. Primo, primeiro
começo
novo
#poesia anônima-coletiva submidialogia#4
23 de dez. de 2008
solar da vista
logo esqueceu mas breve notou
com olhos atentos que riam e viam
no meio da pedra um longo caminho
com olhos atentos que riam e viam
no meio da pedra um longo caminho
25 de nov. de 2008
Cenas Imemoriais de Afonia
O tempo parecia ser nulo... Era o intenso relato do jamais esquecido; O olhar disfarçava o reduto e este era preenchido apenas pelo sensível. Aquela empoeirada história de sempre tinha lugar outra vez.
As peles expostas, os rostos suados, as respirações insones. Tudo indicava aquilo que ela não desejava entender ou mesmo saber. Esteve ela ali parada defronte com os lábios retesados? E... seu grito tinha mesmo ecoado como um tamboril desafinado e desafiante pelo recinto? Pois bem, o grito surdo tinha sido desvencilhado. Assim, os passos audíveis cruzaram o espaço e a porta se fez fechada no absurdo.
Se algo pudesse ser de fato pronunciado, teria dito que já considerava tal calamidade. Sordidez e veleidades estão presentes pelo mundo e ela, sensatamente, não se negava uma parte da constante da vida. No entanto, a surpresa conseguiu atingi-la não como um raio, como muitos imaginariam, mas sim como uma escopeta, ou seja, de forma ruidosa e franca.
Por fim, lágrimas jorravam ao tique-taquear insistente do relógio da sala-de-estar. Melhor seria não estar e nem ser, pensava. Como seria bom não sentir esse latejar enjoativo na cabeça, nem o fôlego inconstante no peito? Se houvesse como, diria que o pior, sem dúvida, era mesmo suas costas que sentiam tristemente o peso acumulado da idade do mundo e a faziam querer desmoronar e permanecer no chão.
O imbatível momento de sobressalto havia passado, mas a angustiosa sensação que o sobrevêm não. Sentia uma satisfação enfastiável em tomar para si o tempo de deliberações, já que os pequenos deletérios amorosos começavam a corroer a insidiosa bravata que havia vestido ao acordar todas as manhãs. Teria ela a coragem de se relegar ao aceite de sua nova condição? Teria, enfim, que sair por detrás das sombras e recorrer à amuada vida de celibatária?
Eram tamanhas as decisões que sub-repticiamente se faziam presentes e eram de tal ordem que um pequeno espasmo a fez contrair o corpo num indiscreto arrepio. Infelizmente, o sinuoso caminho da alcova não poderia deixar de ser realizado e a vileza de seus companheiros não poderia também deixar de ser cooptada.
O ambiente era puro ruído e nenhum sentido, ou melhor, era indisfarçavelmente o anteposto de uma quimera. Se fez-se outrora a pantomínia, em nada o indicava o presente instante. Havia apenas dois olhares perdidos procurando abrigo num peito desamparado. A espuma das horas e das bocas aflitas não indicava o torpor e o rompante que se instaurava no ensejo à vista. Contudo, era inegável a sutileza de cada movimento e de todo o acento reverberado.
O inocente expectador se abominaria com enfadonha troca de gentilezas. A intrigante amabilidade era causada por um indefectível plano que se fez corrente minutos antes da cena anterior. De nada adiantaria, imaginou a pequena, chegar com pedras e porretes à mão se o que desejava era arrancar o mais profundo urro de dor dos tratantes. Usaria sim de pelica e pelúcia, bem mais eficazes em tal situação, para chegar à conclusão almejada.
Pulemos, então, a parte que transcorre e sigamos para um trecho mais atraente dos acontecimentos. Após a afável troca de cortesias, restou apenas o assaz encoberto elefante branco a ser debatido. Temendo ser traída por seu obstinado pesar, cobriu a boca repentinamente fingindo conter um espirro. O vácuo de tempo transposto pelo gesto não pode ser preenchido por outra coisa senão a confissão do ato que, convém dizer, era exatamente o que ela pretendia.
Lágrimas, pedidos de perdão, gritos de ódio, ameaças, tudo teria se tornado realidade se a torrente do Destino não tivesse desviado o percurso de sua sina. Em um instante apenas, como anteriormente, os meandros da vida se fizeram presente e mudaram a direção dos acontecimentos. O coração, antevendo e temendo sofrer tamanha agressão, susteve-se e as pernas, bambas e cansadas, tombaram ao peso irresoluto da duração ordinária de sua existência, levando, dessa forma, aquele que não poderia ser perdoado a rés-do-chão.
Sem dignidade, malicia ou auto-estima, ela debandou em direção ao combalido corpo com lágrimas de preocupação aos olhos. Toda a tórpida dor, todo fogo acre do ódio, todo o aforismo guardado na ponta da língua foi contido graças ao túrbido estado de nossa personagem. Digo contido para não ter de dizer exaurido ou até mesmo exorcizado, já que passado o momento de preocupação, isto é, dias após, quando o seu finório amado encontrava-se em melhores condições, fingiu nada ter sucedido além dessa atordoante enfermidade.
Não se sabe até hoje se esqueceu no susto ou se perdoou no temor, entretanto, faz-se mister destacar que vive bem, saudável e lépida ao lado dele, sem nunca voltar para casa antes de avisá-lo com horas antecedência para não causar mais nenhum mal-estar ou moléstia, seja no mesmo ou seja, mais provavelmente, entre ambos.
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