proesias reunidas para leitores imaginários

25 de nov. de 2008

Cenas Imemoriais de Afonia

O tempo parecia ser nulo... Era o intenso relato do jamais esquecido; O olhar disfarçava o reduto e este era preenchido apenas pelo sensível. Aquela empoeirada história de sempre tinha lugar outra vez.

As peles expostas, os rostos suados, as respirações insones. Tudo indicava aquilo que ela não desejava entender ou mesmo saber. Esteve ela ali parada defronte com os lábios retesados? E... seu grito tinha mesmo ecoado como um tamboril desafinado e desafiante pelo recinto? Pois bem, o grito surdo tinha sido desvencilhado. Assim, os passos audíveis cruzaram o espaço e a porta se fez fechada no absurdo.

Se algo pudesse ser de fato pronunciado, teria dito que já considerava tal calamidade. Sordidez e veleidades estão presentes pelo mundo e ela, sensatamente, não se negava uma parte da constante da vida. No entanto, a surpresa conseguiu atingi-la não como um raio, como muitos imaginariam, mas sim como uma escopeta, ou seja, de forma ruidosa e franca.

Por fim, lágrimas jorravam ao tique-taquear insistente do relógio da sala-de-estar. Melhor seria não estar e nem ser, pensava. Como seria bom não sentir esse latejar enjoativo na cabeça, nem o fôlego inconstante no peito? Se houvesse como, diria que o pior, sem dúvida, era mesmo suas costas que sentiam tristemente o peso acumulado da idade do mundo e a faziam querer desmoronar e permanecer no chão.

O imbatível momento de sobressalto havia passado, mas a angustiosa sensação que o sobrevêm não. Sentia uma satisfação enfastiável em tomar para si o tempo de deliberações, já que os pequenos deletérios amorosos começavam a corroer a insidiosa bravata que havia vestido ao acordar todas as manhãs. Teria ela a coragem de se relegar ao aceite de sua nova condição? Teria, enfim, que sair por detrás das sombras e recorrer à amuada vida de celibatária?

Eram tamanhas as decisões que sub-repticiamente se faziam presentes e eram de tal ordem que um pequeno espasmo a fez contrair o corpo num indiscreto arrepio. Infelizmente, o sinuoso caminho da alcova não poderia deixar de ser realizado e a vileza de seus companheiros não poderia também deixar de ser cooptada.

O ambiente era puro ruído e nenhum sentido, ou melhor, era indisfarçavelmente o anteposto de uma quimera. Se fez-se outrora a pantomínia, em nada o indicava o presente instante. Havia apenas dois olhares perdidos procurando abrigo num peito desamparado. A espuma das horas e das bocas aflitas não indicava o torpor e o rompante que se instaurava no ensejo à vista. Contudo, era inegável a sutileza de cada movimento e de todo o acento reverberado.

O inocente expectador se abominaria com enfadonha troca de gentilezas. A intrigante amabilidade era causada por um indefectível plano que se fez corrente minutos antes da cena anterior. De nada adiantaria, imaginou a pequena, chegar com pedras e porretes à mão se o que desejava era arrancar o mais profundo urro de dor dos tratantes. Usaria sim de pelica e pelúcia, bem mais eficazes em tal situação, para chegar à conclusão almejada.

Pulemos, então, a parte que transcorre e sigamos para um trecho mais atraente dos acontecimentos. Após a afável troca de cortesias, restou apenas o assaz encoberto elefante branco a ser debatido. Temendo ser traída por seu obstinado pesar, cobriu a boca repentinamente fingindo conter um espirro. O vácuo de tempo transposto pelo gesto não pode ser preenchido por outra coisa senão a confissão do ato que, convém dizer, era exatamente o que ela pretendia.

Lágrimas, pedidos de perdão, gritos de ódio, ameaças, tudo teria se tornado realidade se a torrente do Destino não tivesse desviado o percurso de sua sina. Em um instante apenas, como anteriormente, os meandros da vida se fizeram presente e mudaram a direção dos acontecimentos. O coração, antevendo e temendo sofrer tamanha agressão, susteve-se e as pernas, bambas e cansadas, tombaram ao peso irresoluto da duração ordinária de sua existência, levando, dessa forma, aquele que não poderia ser perdoado a rés-do-chão.

Sem dignidade, malicia ou auto-estima, ela debandou em direção ao combalido corpo com lágrimas de preocupação aos olhos. Toda a tórpida dor, todo fogo acre do ódio, todo o aforismo guardado na ponta da língua foi contido graças ao túrbido estado de nossa personagem. Digo contido para não ter de dizer exaurido ou até mesmo exorcizado, já que passado o momento de preocupação, isto é, dias após, quando o seu finório amado encontrava-se em melhores condições, fingiu nada ter sucedido além dessa atordoante enfermidade.

Não se sabe até hoje se esqueceu no susto ou se perdoou no temor, entretanto, faz-se mister destacar que vive bem, saudável e lépida ao lado dele, sem nunca voltar para casa antes de avisá-lo com horas antecedência para não causar mais nenhum mal-estar ou moléstia, seja no mesmo ou seja, mais provavelmente, entre ambos.

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