proesias reunidas para leitores imaginários

11 de set. de 2010

Maré e superfície

Maré e superfície
(ou proesias reunidas para leitores imaginários)

Junto os fragmentos estilhaçados ao chão, que não refletem senão cores soltas, atravesso o espelho e cerro os punhos. Fico enredando para não soltar, pois tenho medo de perder. Já perdi. Já soltei e esqueci, fingindo que não sei. Recordo-me de quando nem era. Amargo novamente a dor de ser. Porém, agora encontro-me sentado, em frente ao relógio. Distraído, ajeito-me na lembrança que me sustenta ali, aguardando a campainha tocar. Volto ao começo, já devia ter uns 5 anos quando nasci.

O pé na grama, sol forte, nem senti quando voei rumo aos campos. Os raios batiam sobre a árvore torta que esparramava nua sua sombra no carro batido. O vermelho-fato da família e das frutas. Vermelho não pede calma. Hoje, fico enveredando pelo estranho. Nem sei se sou mais. Queimaduras de terceiro grau no último grão de si insistem em comparecer aos meus óbvios desencontros. Para mim, sou nada, mas não paro de me sentir. E os cúmplices: identidade, foto, nome, cartão de crédito, tudo que diz quem sou. No fundo, deve dar tudo no mesmo. O melhor não se fala. Fica quieto, guardadinho no miúdo.

Levantou-se da poltrona azul, que resmungou sua ausência. Correu para o banheiro e cruzou novamente o espelho, desta vez fitando a si mesmo do outro lado. Caía em si. Mas não estava parado. A permanência é um efeito de superfície, que nem a maré: - Quando lua chega, vai de um lado pro outro. A gente não vê nada, mas quem está fora diz que foi pra frente, foi pra trás. Somos puxados e nem damos conta disso. Só quem é seco pode dizer.

Assim, se fosse. Sairia de casa sem esperar. Deixaria calado para não gritar ou - quem sabe? - nem mesmo pensasse em falar. Mas, dito, aguardo. Arranco os ponteiros do relógio e faço tatuagens sobre a pele. Escorre um fino sangue. Só podemos jogar nossos corpos, seja horizontal ou verticalmente. Eu lanço-o no passado, meu assunto. Saudades de um tempo que nem sei. As almofadas respiraram aliviadas quando encostei minha cabeça flutuante sobre elas novamente. Assim, cansado, para evitar problemas, melhor sesquivar.

Sobre o colo, alisava uma caixa com recordações. Vivia no passado, em si mesmo. Não demorava a tudo parecer como retrato velho, meio manchado. Mas estava lá, vivo, pululando. E vai dizer que cinza que é triste? Cor infeliz é marrom-de-foto-antiga. Vê que nem é cor que existe, assim, por si própria. Só nasce quando algo já não é mais e fica ali, comendo memória. Parasita. Tem mais lástima que isso, não.

Do outro lado da porta, escorava-se um sujeito com a barba suja que, de tanto ser visto, tornou-se invisível para quase todos. Uma vez resolveu conversar, mas ninguém partilhava. As pessoas olhavam esquisito. De viés, menosprezando. “Não tenho dinheiro, nem cigarro, nem nada, desculpa.” E vai pedir perdão? Vivia onde o som é vento (e bala), na vista é seco (e nada) e na barriga fome (e raiva). Egoísta não era. Vez em quando, pegava qualquer-coisa-que-se-mova e absorvia só para vomitar diferente e outro também poder se alimentar. Mas aí nem a comida, nem o faminto são mais os mesmos, devemos concordar.

Desisti de esperá-la. Pego minha arma, coloco-a em um pacote de sanduíches. Estou pronto para encarar as ruas. Mas por onde começar? Se ela está vindo, talvez possamos nos esbarrar pelo caminho, apesar de não lembrar seu endereço. De fato, seria necessário deter-me sobre as íris de cada pessoa para descubrí-la, visto que não lembro de seu rosto e sequer se a conheço de fato. Somente fractais.

Quando saí, o homem de barbas sujas sussurrou como de costume: “Me dê uma moeda? Fique com Deus”. Quase passei direto. O desejo de o encarar para checar seus olhos me deteve na porta por algum tempo, mas neguei-lhe o pedido. De que me valhe um Deus sem uma moeda? Antes ele me pedisse para dar-lhe um Deus e ficar com um trocado, eu prontamente forjaria uma divindade. Mas é preciso que cada um invente seus próprios deuses e demônios.

Sigo guiado por mãos invisíveis pelas veias de uma cidade imaginária. Penso em acender um cigarro, mas me recordo que às quartas não se pode fumar. Ao lado dos palácios, observo um homem a gritar algumas palavras de ordem. Sem roupa e descalço, Ivo seguia enfeitando os orelhões públicos com suas decorações. “Sua camisa ainda não ficou pronta pois ainda não consegui tirar o desenho do seu corpo”. Contorno os jardins lunares da praça central e sigo pelas sinuosas bifurcações que levam aos pés dos Montes. De longe posso ver o grandioso edifício metálico a tocar Deus no céu com seus dedos-antenas. Ao redor dele, milhares de pessoas aglomeram-se caminhando vagarosamente em uma romaria silenciosa. Adentro na multidão e, após alguns empurrões, consigo chegar ao interior do prédio. Em seu teto, estrelas se interligam em constelações auto-reconfiguráveis, formando com seus riscos mutantes um desenho futurista das almas do mundo. Sobre o altar paira o interconector que recebe as ondas cerebrais amplificadas no ar e realiza as interligações, de acordo com o amor ou a repulsa. A dissolução reticular dos pensamentos deixam os presentes em um torpor contínuo. Está comprovado: os corpos fracos conduzem melhor eletricidade.

Passa-se uma eternidade até a duração infinita dos devires possíveis atravessarem meus órgãos por completo. Porém, enfim, consigo empunhar meu revólver e atirar contra o interconector. Em suas frequências, todos agora parecem desorientados e se esbarram como cegos. De volta à era do chip lascado. Com a arma em mãos, caminho em cantos como ser casual, até uma placa luminosa chamar minha atenção e eu entrar no seu prédio antigo e ruidoso. Nele, um espetáculo sem público criava espontaneamente um jogo cênico onde os atores, todos, simulavam a chegada de um estranho à peça. Subitamente, ele se percebia como protagonista de uma trama em espiral. Descobre-se em um grande show com todos os olhos voltados para si.

Enquanto meu guarda-roupa, cama, estante e outros móveis descansam imóveis na natureza formigante e deserta do meu quarto, desci do palco e lancei-me novamente às ruas para buscar minha ilustre desconhecida. Talvez estivesse desenhada em algum dos muros. Não aqueles que ostentam sinais oficiais, mas a parede-comum, tela de gritos pichados em azul cor do céu. Estava novamente calmo, exceto pela estranha sensação de alguém a me observar. Olhos ternos. Tanto faz esta floresta futurista em efervescência, vou esperando, querendo e fotografando paisagens em meu caderno.

Porém, devo admitir que estes são apenas alguns relatos colhidos em um furto poético no correio de desconhecidos. Fatos que nem de longe podem reconstituir o que aconteceu naqueles anos enferrujados ainda por vir. No entanto, minha televisão com auto-definição resolvia aquelas equações de jardins e transmitia, desde já, tudo em primeira mão para mim, que a assistia comodamente na minha poltrona. A monotonia do meu futuro foi interrompida com a campainha. Tomado pelo entusiasmo, levantei-me de sobressalto para abrir a porta. Era o meu vizinho com seu mesmo sorriso largo, bochechas rosadas e a indefectível roupa branca que sempre ofusca minha vista. Como de costume, ele tirou minha temperatura e me deixou dois comprimidos sem nem ao menos se despedir antes de entrelaçar os dedos contra a porta do hóspede ao lado. Sinto ciúmes e inveja do vizinho que agora recebe a atenção do silencioso homem de branco. Deixo a poltrona sugar-me novamente e faço o mesmo com os comprimidos. Vejo tudo tornar-se claro como a Via Láctea.

Acordo de sobressalto e vomito pela janela palavras bárbaras. Fico à espreita. Prefiro ver deitado o teto dos banheiros sujos, enquanto tocadores de liras citam um abecedário ao contrário, que anuncia o mundo justo onde enfim nascerá o homem capaz de ignorar o zunido das coisas quietas aos domingos. Antes isto do que este tédio ruminante, onde tudo pende sobre as horas, as cores e os cheiros. Pego as anotações roubadas, as cartas que não chegaram aos destinatários, todos os pequenos tickets de cartão de crédito, os desenhos que fiz enquanto aguardava a chegada de desconhecidos e minhas roupas. Entulho tudo no guarda-roupa, cercando-o com vinho. Ah, as uvas. Risco um fósforo e lanço-o contra o móvel, revelando sua verdadeira natureza.

Acordo novamente com alguém na porta. Abro-o e entra pálido um anão de aparência cansada. “Desculpe, estive vigiando o senhor pela minha janela”. Suando, ele me carrega até a janela, deixando meu corpo a pender sobre o parapeito como uma pluma leve equilibrada na quina. Então, me aponta os jardins onde polimateias magnas pousavam incessamente nos mananciais, poupando-nos de mais indescrixoráveis dúvidas das divisas entre dentro e fora. Abriram-se suas asas de Hollywood e suas prágoras dilataram e succionaram o pouco rio a filetear a beira dos meus olhos, que fez reterna retina das causas simples as coisas não-vistas no conoitiano fantástico. A angústifania epidermiurgicamente com sumiu as carnes do meu pensaltear em rideias descritas.

3 comentários:

Heyk disse...

compadre, isso é bom. os enredos sobrepostos são interessantes, não sei se daria pra separar, porque apesar de muitas pequenas passagens o texto resolve todas. Meu medo é às vezes ficar no clima de filme de terror sabe, o diteror diz: "hum, que colocamos agora?", "ah, coloca uns carros comendo as pessoas". Entende, quando na prosa, as imagens são mais fantásticas que o enredo, talvez seja´interessante também assumir o poema.
Mas definitivamente não é o caso aqui. O texto é realmente rico, a gatinha, o quarto, a tela assassinada, o saco de sanduíche. Uma série de bons objetos à prosa, citei meia dúzia, mas tem mais; e também uma série de versos e imagens caras a um bom poema, por isso proesias mesmo, com razão. Olha, é um mundo fantástico interessantíssimo, pena essa mania de se fazer acordar no fim. Acredito muito que devemos dar chances a outros mundos, seja, inventá-los sem desculpas ou concessões.
Se não acordasse eu andaria por aí caçando esse anão e essa tela. agora, sei que não exitem (inventar aumenta o mundo, adriano)
Enfim, fiquei imensamente feliz de ter começado meu domindo assim.
Obrigado.
*mando uns ajustes por email.

Unknown disse...

vez em quando tenho uns sonhos de 3 minutos que tu poderias traduzir pra mim porque é tipo isso de muito tédio e poucos anões.

Anônimo disse...

que boas ideias! gostei mesmo. curto as associações - livres, mas trançadas, feitas. (inês nin)