Outro dia ele me disse algo muito interessante.
E eu escutei porque não tive outra escolha.
Estavámos deitados ali, um ao lado do outro.
Cada um em seu próprio canto de pensações.
Eu no banal: comida, contas, carro, crianças.
Ele...
Disse repentinamente:
- Não vejo porque aguentamos tudo. Quando as coisas acabam, dá-se adeus e segue-se em frente. Fingir por inércia é pior. Dizemos, assim, que não temos força suficiente. O que é uma falácia tão grande que me enjoa.
E num pulo saiu para o banheiro batendo a porta.
Olhei para o lado assustada.
As palavras tomando um formato estranho na cabeça, o barulho constante da porta fechando, o choro que se seguiu agressivo.
Num instante de silêncio.
Mais uma vez a porta abre e junto dela aquele homem desconhecido.
Acho que nunca tinha realmente olhado para ele.
Fatalmente, ele e a lembrança dele se confundiram nos meus olhos embaçados.
O cabelo negro que se tornara grisalho, o cacheado meio hippie que fora substituido por um corte curto disfarçando a calvice; os olhos profundos, com marcas e bolsas de sonos perdidos; o sorriso torto que o torna inegavelmente uma versão mais ironica de si mesmo.
Os sinais do anos agora gritavam bem alto: a barriga das cervejas com os amigos e dos nossos vinhos de domingo, os milhares de pelos brancos espalhados pelos lugares mais inacreditáveis, as mãos enrugadas e pesadas que me acariciavam vagamente a barriga.
Pequenas coisas que antes passavam despercebidas e agora me agradavam tanto quanto um tapa na cara.
Ele abriu e fechou a porta, voltando mais uma vez para a cama.
Arregalou os olhos assustado ao me ver chorando. "O que foi?".
Respirei fundo. No susto:
- Nada. Achei bonito o que você disse. Fez pensar que não podemos levar a vida frouxa. Me abraça, eu te amo.
Eu sei que ele não me compreendeu. Melhor.
Achou que eu estava doida e me abraçou.
A mesma de sempre, mesmo eu também estando mudada.
Que seja! Que ele me pense louca a me pensar sua.
É assim que vamos vivendo bem até o fim dos dias.
E eu escutei porque não tive outra escolha.
Estavámos deitados ali, um ao lado do outro.
Cada um em seu próprio canto de pensações.
Eu no banal: comida, contas, carro, crianças.
Ele...
Disse repentinamente:
- Não vejo porque aguentamos tudo. Quando as coisas acabam, dá-se adeus e segue-se em frente. Fingir por inércia é pior. Dizemos, assim, que não temos força suficiente. O que é uma falácia tão grande que me enjoa.
E num pulo saiu para o banheiro batendo a porta.
Olhei para o lado assustada.
As palavras tomando um formato estranho na cabeça, o barulho constante da porta fechando, o choro que se seguiu agressivo.
Num instante de silêncio.
Mais uma vez a porta abre e junto dela aquele homem desconhecido.
Acho que nunca tinha realmente olhado para ele.
Fatalmente, ele e a lembrança dele se confundiram nos meus olhos embaçados.
O cabelo negro que se tornara grisalho, o cacheado meio hippie que fora substituido por um corte curto disfarçando a calvice; os olhos profundos, com marcas e bolsas de sonos perdidos; o sorriso torto que o torna inegavelmente uma versão mais ironica de si mesmo.
Os sinais do anos agora gritavam bem alto: a barriga das cervejas com os amigos e dos nossos vinhos de domingo, os milhares de pelos brancos espalhados pelos lugares mais inacreditáveis, as mãos enrugadas e pesadas que me acariciavam vagamente a barriga.
Pequenas coisas que antes passavam despercebidas e agora me agradavam tanto quanto um tapa na cara.
Ele abriu e fechou a porta, voltando mais uma vez para a cama.
Arregalou os olhos assustado ao me ver chorando. "O que foi?".
Respirei fundo. No susto:
- Nada. Achei bonito o que você disse. Fez pensar que não podemos levar a vida frouxa. Me abraça, eu te amo.
Eu sei que ele não me compreendeu. Melhor.
Achou que eu estava doida e me abraçou.
A mesma de sempre, mesmo eu também estando mudada.
Que seja! Que ele me pense louca a me pensar sua.
É assim que vamos vivendo bem até o fim dos dias.
12 comentários:
Não tenho condições de ler agora, vc sabe....é só pra deixar o contato!
Volto depois.
Adorei conhecer! Um presente!
gostei
esse título é de uma música, q me mostraram bem por causa desse verso.. só escutei essa vez
túnel do tempo: os mesmos homens desconhecidos. "acho que nunca eu realmente tinha olhado para ele". perfeito
gostei bastante!
Estava confundindo com outra música, de que os versos lindos de onde veio seu título é uma citação. Os versos da primeira música foram considerados por não sei quem os melhores da língua portuguesa, e o Caetano já citou em outra música. Eu acho o máximo, talvez vc conheça:
Chão de Estrelas
(Silvio Caldas/Orestes Barbosa)
Minha vida era um palco iluminado,
Eu vivia vestido de doirado,
Palhaço das perdidas ilusões . . .
Cheio dos guizos falsos da alegria,
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações.
Meu barracão, no morro do Salgueiro,
Tinha o cantar alegre de um viveiro,
Foste a sonoridade que acabou . . .
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou . . . .
Nossas roupas comuns dependuradas,
Na corda qual bandeiras agitadas,
Pareciam um estranho festival . . .
Festa dos nossos trapos coloridos,
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional.
A porta do barraco era sem trinco,
Mas a lua, furando o nosso zinco,
Salpicava de estrelas nosso chão . . .
Tu pisavas nos astros distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão . . .
Continuando, alguns séculos depois...
A letra da canção mais antiga, que deu origem ao verso aludido por caetano, é de Silvio Caldas. Tirei do dicionário Cravo Albin:
A canção "Chão de estrelas", de 1936, também de sua parceria com Orestes Barbosa, além de grande sucesso, tornou-se clássico do cancioneiro popular brasileiro e presença obrigatória nas rodas de serestas. Considerada por muitos como a obra prima da dupla, a canção "Chão de estrelas", cujo título original era "Sonoridade que acabou", modificado por sujestão do poeta paulista Guilherme de Almeida, só se tornaria sucesso nacional quando de sua segunda gravação, realizada na década de 1950. Composta sobre um poema em decassílabos - que Orestes relutou em consentir que fosse musicado -, a obra foi citada em uma crônica de Manuel Bandeira que assim terminava: " se se fizesse aqui um concurso ... para apurar qual o verso mais bonito de nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes 'tu pisavas os astros distraída' ".
A música do Caetano
Como dois e dois
Quando você
Me ouvir cantar
Venha não creia eu não corro perigo
Digo não digo não ligo, deixo no ar
Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar
Tudo vai mal, tudo
Tudo é igual quando eu canto e sou mudo
Mas eu não minto não minto
Estou longe e perto
Sinto alegrias tristezas e brinco
Meu amor
Tudo em volta está deserto
tudo certo
Tudo certo como dois e dois
são cinco
Quando você me ouvir chorar
Tente não cante não conte comigo
Falo não calo não falo deixo sangrar
Algumas lágrimas bastam pra consolar
Tudo vai mal, tudo
Tudo mudou não me iludo e contudo
A mesma porta sem trinco, o mesmo teto
E a mesma lua a furar nosso zinco
Meu amor
Tudo em volta está deserto tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco (2x)
Cinco!
E essa outra do caê q cita de novo a mesma musica, os mesmos versos praticamente. Nessa, ele faz de novo, mas tb explica o processo de dois e dois. tudo isso, com certeza, pq a musica do orestes e do silviio caldas é canção estilo antigo. vcs conhecem então Livros?
Livros
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas
então, chega de palavras para mim!
só digo mais uma coisa, Catherine Sofia. Adorei o seu texto. Muito bem construído. A porta que fecha e abre marcando a transformação. Mas a permanência do antigo olhar, junto com o novo, criando o contraste. E depois, nenhum dos lados ganha. O que ganha é a prosa, a construção, cada vez mais perto da verdade. A tendência pela prosa talvez venha da facilidade de pensar, ganhando terreno ao impensável. Te admiro, grande prosadora.
A demora do comentário vem desse mistério do tempo, que de tanto dispormos, vivemos frouxo. Só agora olhei para ele, posso dizer do seu conto (ou crônica). Que pra mim, está pronto. Perfeitamente publicável (ou encenável)! Beijo
Ai, que ignorância. Pra quem é da época paree óbvio, mas eu não sabia até outro dia dessa outra alusão no "Dois e dois são cinco". Vejam vocês mesmos esse poema do gullar que vocês devem reconhecer, vagamente, como eu, como letra de música, cantado por Nara Leão e mais umas pessoas.
"Dois e Dois são Quatro"
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.
in: Dentro da noite veloz. 1975.
santa ignorância (2)!! A música como 2 e 2 é do Robertoooo!!!!
viva a ignorância
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