proesias reunidas para leitores imaginários

6 de out. de 2008

mais uma de outono

A maior dor é se ter perto quem se quer longe e estar distante de quem se quer próximo.
É olhar nos olhos quando se vê a boca e beijar a boca quando se está aos prantos.

A maior dor é não conseguir ultrapassar o disfarce e como um malabarista asfaltar o desejo.
- Verter o riso, falsear sorrisos, mover os dedos e reencontrar o tino.

A maior dor é a silenciosa, da angústia amarga que aperta o peito.
É seguir em frente quando se quer ficar parado e deixar de correr atrás (ou para trás) para prosseguir débil um outro rumo.

A maior dor é aquela dos que não têm o que querem e a dos que sempre querem o que não se têm.
- (Re)Viver o passado, olhá-lo nos olhos, cheirar seu pescoço e atuar o desdém do dia-a-dia.

A maior dor é a dos que calam o que poderia ser berrado e que esbravejam o que nunca deveria ser dito.
É fingir desejo quando não se têm vontade, simular querer quando se têm desapego.

A maior dor é amar quem não deve e, por fim, não amar a si mesmo como se deveria.
- Ver os meandros do futuro sendo talhados no presente e, ainda assim, não se poder fazer nada a não ser sentir raiva.

É, do fim ao princípio, querer e não poder, decorrer e não percorrer, arremedar ao invés de expôr-se.


E, se agora recolho aqui - e apenas aqui - a distância entre intenção e gesto é porque, de resto, me ponho a rir enquanto (en)gano.

3 comentários:

Luiza Trindade disse...

Achei muito bonito. Que coisa mais Tati! Que gosto pela sinceridade. Que gana pelo desejo. Uma imagem exata: "Não conseguir ultrapassar o disface". Uma imagem bonita: "asfaltar o desejo". Vejo-me fazendo isso muitas vezes, e sei que é aí que me engano.
Voltou o tema do fingimento, da atuação... é frutífero, né?

Luiza Trindade disse...

disfarçam segredos (URB postagem do adriano)

adriano disse...

"- Ver os meandros do futuro sendo talhados no presente e, ainda assim, não se poder fazer nada a não ser sentir raiva."

gostei muito disso!
concordo com a luiza.

"de tal maneira que depois de feito desencontrado eu mesmo me contesto" - é isso aí!

viva a atuação!