Anabelle ficou calada. Sabia que não deveria dizer o que realmente se passava pela sua cabeça. Contudo, ficar em silêncio nunca tivera sido o seu forte. Respirou fundo e disse a única coisa que não deveria:
- Eu não te amo mais. Acabou.
As palavras, cuspidas num momento subido com firmeza, foram o suficiente. Tudo se tornou cinza e ela saiu do quarto com o estrondo da porta fechando.
O diretor gritou corta.
Todos pareciam contentes, menos ela - e ele. As luzes iam se apagando uma a uma ao passo em que ela deixava o turbilhão e se dirigia para seu camarim. Era uma atriz consagrada há vários anos, mas aquelas tinham sido as falas mais difíceis de sua carreira.
A luz branca do camarim atingiu seus olhos. Sentou-se defronte ao espelho jogando para longe a peruca que a apertava e olhou-se nos olhos ignorando aqueles que a cercavam. Os anos, podia ver, tinham se passado repentinamente e a menina sorridente que um dia tinha sido fora substituída por essa mulher desconhecida e amarga que a olhava de volta sem nenhuma surpresa. Preferiu, entretanto, continuar fingindo - sua grande arte - até o último momento.
- Encontro com vocês lá embaixo para comemorarmos, queridos.
O sorriso que nada tinha de sincero foi o suficiente para aplacar qualquer dúvida. O esforço do gesto conteve um pouco a fúria de seus pensamentos. Sentiu apenas a vida escorrer pelos seus dedos enquanto as pessoas saiam porta afora para celebrar o que acreditavam ser um outro sucesso. Finalmente deixavam-na a sós com a luz seca da realidade.
Arnaud sentia o mesmo. O desagradável gosto do sucesso, o implacável tocar da música dos créditos finais. Acabou. Ele teria chorado o fato se ainda lhe fosse permitido. Não era. Desligou as luzes do seu próprio camarim e saiu para enfrentar aquele dia chuvoso de primavera um ano depois de tudo, anos-luz à frente de qualquer felicidade verdadeira.
Infelizmente, a vida, como é bem sabido, é cheia de pequenas surpresas e eis que apenas alguns passos o fizeram encontrar-se com Anabelle. Esboçou uma reação, mas ela o parou com o olhar. Tinha uma câmera por perto. Andaram mais um pouco em silêncio e se separaram em seguida.
Anabelle voltou para a casa, para a sua família fictícia com seu marido plástico e filhos que poderiam ter saído de um catálogo de compras. Arnaud fez o mesmo. Nunca mais se veriam novamente. O peso era insuportável. A liberdade de Ser tinha sido expurgada, posta de lado em detrimento do entretenimento. Cada um deles podia apenas seguir interpretando seus próprios papéis a vista dos outros.
Mas ela o amava. Não sabia explicar o momento exato em que tinha acontecido, nem como podia ainda ser possível tal façanha. As regras eram claras: a ficção não podia se tornar realidade, nem vice-versa. Suas falas, entonações, pausas e gestos tinham sido os mesmos de sempre, descritos por um dos muitos telespectadores do programa. Aquela história ainda poderia estar sendo contada, mas algo os havia traído. Talvez seus olhares nos bastidores ou o batimento ensurdecedor de seus corações, não se sabe.
Todavia, me adianto. O conto de Anabelle e Arnaud não deveria começar assim, meu filho. Sei que nosso tempo é curto, por isso precisava mostrar um pouco do sofrimento dos dois naquele dia para que você entendesse o porquê de tudo que estamos passando agora.
Ao dizê-lo o Velho acendeu outro cigarro. A tela continuava pausada na expressão fria de Anabelle, com seus olhos cinzentos e duros, seu nariz fino e bochechas rosadas. Traços que avaliados separadamente em nada combinavam com seu maxilar forte, mas que juntos criavam um semblante memorável. Na imagem, seus cabelos passeavam ao vento frio enquanto seus braços permaneciam cruzados, protegidos do contato com o homem que andava cabisbaixo ao seu lado.
O rapaz parecia fascinado pela fisionomia daquela mulher, tão nobre e ao mesmo tempo tão frágil e o velho soube aproveitar-se da pausa para avaliar o quanto do que dissera teria atingindo o garoto. Assim, tornou a vasculhar a caixa ao seu lado a procura de novas filmagens para mostrá-lo enquanto o menino ia absorvendo aos poucos o que tinha pronunciado.
O pequeno quis perguntá-lo porque ele, dentre os garotos que conhecia, tinha sido escolhido para carregar o fardo de passar adiante uma história tão potente. Ele, com seu jeito tímido e seu corpo franzino, não apresentava nada de especial a oferecer a alguém. Entretanto, o velho tinha ido buscá-lo e a ninguém mais, o que em si já era confuso.
O velho o convenceu a ir com ele ao prometer que o traria de volta antes do amanhecer. O menino quis crer que ninguém ali sentiria realmente sua falta. Foi, então, levado àquela casa escondida no meio da noite, quando as câmeras normalmente estão transmitindo de forma aleatória a cada fração de hora. Imaginou, por isso, se o velho estava caduco ou se brincava com ele, já que parecia não haver câmeras no recinto, o que tornava estar ali bastante assustador.
O garoto ponderou sobre sua situação. Como não sabia como agir ou o que fazer, decidiu fazer diretamente todas aquelas perguntas ao velho, mas só conseguiu permanecer estático de medo. E se houvesse alguma câmera escondida? E se o velho o punisse por falar diretamente com ele?
Tinha muito receio de acidentalmente olhar nos olhos dele, pois já tinha aprendido que quando se olha nos olhos de alguém se pode ter a alma roubada. Não. Era preciso olhar para o outro apenas através da telinha, pois assim não se corria risco. Seus colegas tinham conhecido alguns Sem-Alma e lhe contaram como eram nojentos. Ele mesmo quase tinha tido sua alma roubada uma vez quando viu rapidamente os olhos de Raquela, sua irmã.
Ela estivera por muito tempo olhando diretamente para o rosto dele e por isso ele a reportou às autoridades. Aquela menina tinha quase acabado com a vida de ambos com aqueles olhos castanhos de barro e aquela proximidade irritante.
Contudo, lembrar de Raquela trazia-lhe certa dor. Muitas vezes, deitado à noite, pensava nela. Acreditava ter agido certo ao denunciá-la, mas supunha que aquilo o havia danificado para sempre. Tinha constantes pesadelos com os dois rindo e conversando diretamente um com o outro. Andavam de mãos dadas num lugar sem câmeras, sinais ou carros. O chão que pisavam era feito de um cimento verde macio e estavam cercados por aqueles alojamentos primitivos de animais, iguais aos que tinha visto no passeio feito ano passado ao Jardim Botânico. Então, não havia mais ninguém por perto a não ser os dois e Raquela chegava perto e o abraçava forte e...
O velho subitamente o arrancou desses pensamentos ao colocar outro vídeo daquela mulher. Ele a viu pela última uma vez andando desconsoladamente na chuva primaveral e se perguntou se ela quando pensava em Arnaud também teria sentido aquele mesmo aperto que ele tinha agora quando pensava na irmã. Será que ela também se perguntava o que aquilo poderia significar?
As palavras, cuspidas num momento subido com firmeza, foram o suficiente. Tudo se tornou cinza e ela saiu do quarto com o estrondo da porta fechando.
O diretor gritou corta.
Todos pareciam contentes, menos ela - e ele. As luzes iam se apagando uma a uma ao passo em que ela deixava o turbilhão e se dirigia para seu camarim. Era uma atriz consagrada há vários anos, mas aquelas tinham sido as falas mais difíceis de sua carreira.
A luz branca do camarim atingiu seus olhos. Sentou-se defronte ao espelho jogando para longe a peruca que a apertava e olhou-se nos olhos ignorando aqueles que a cercavam. Os anos, podia ver, tinham se passado repentinamente e a menina sorridente que um dia tinha sido fora substituída por essa mulher desconhecida e amarga que a olhava de volta sem nenhuma surpresa. Preferiu, entretanto, continuar fingindo - sua grande arte - até o último momento.
- Encontro com vocês lá embaixo para comemorarmos, queridos.
O sorriso que nada tinha de sincero foi o suficiente para aplacar qualquer dúvida. O esforço do gesto conteve um pouco a fúria de seus pensamentos. Sentiu apenas a vida escorrer pelos seus dedos enquanto as pessoas saiam porta afora para celebrar o que acreditavam ser um outro sucesso. Finalmente deixavam-na a sós com a luz seca da realidade.
Arnaud sentia o mesmo. O desagradável gosto do sucesso, o implacável tocar da música dos créditos finais. Acabou. Ele teria chorado o fato se ainda lhe fosse permitido. Não era. Desligou as luzes do seu próprio camarim e saiu para enfrentar aquele dia chuvoso de primavera um ano depois de tudo, anos-luz à frente de qualquer felicidade verdadeira.
Infelizmente, a vida, como é bem sabido, é cheia de pequenas surpresas e eis que apenas alguns passos o fizeram encontrar-se com Anabelle. Esboçou uma reação, mas ela o parou com o olhar. Tinha uma câmera por perto. Andaram mais um pouco em silêncio e se separaram em seguida.
Anabelle voltou para a casa, para a sua família fictícia com seu marido plástico e filhos que poderiam ter saído de um catálogo de compras. Arnaud fez o mesmo. Nunca mais se veriam novamente. O peso era insuportável. A liberdade de Ser tinha sido expurgada, posta de lado em detrimento do entretenimento. Cada um deles podia apenas seguir interpretando seus próprios papéis a vista dos outros.
Mas ela o amava. Não sabia explicar o momento exato em que tinha acontecido, nem como podia ainda ser possível tal façanha. As regras eram claras: a ficção não podia se tornar realidade, nem vice-versa. Suas falas, entonações, pausas e gestos tinham sido os mesmos de sempre, descritos por um dos muitos telespectadores do programa. Aquela história ainda poderia estar sendo contada, mas algo os havia traído. Talvez seus olhares nos bastidores ou o batimento ensurdecedor de seus corações, não se sabe.
Todavia, me adianto. O conto de Anabelle e Arnaud não deveria começar assim, meu filho. Sei que nosso tempo é curto, por isso precisava mostrar um pouco do sofrimento dos dois naquele dia para que você entendesse o porquê de tudo que estamos passando agora.
Ao dizê-lo o Velho acendeu outro cigarro. A tela continuava pausada na expressão fria de Anabelle, com seus olhos cinzentos e duros, seu nariz fino e bochechas rosadas. Traços que avaliados separadamente em nada combinavam com seu maxilar forte, mas que juntos criavam um semblante memorável. Na imagem, seus cabelos passeavam ao vento frio enquanto seus braços permaneciam cruzados, protegidos do contato com o homem que andava cabisbaixo ao seu lado.
O rapaz parecia fascinado pela fisionomia daquela mulher, tão nobre e ao mesmo tempo tão frágil e o velho soube aproveitar-se da pausa para avaliar o quanto do que dissera teria atingindo o garoto. Assim, tornou a vasculhar a caixa ao seu lado a procura de novas filmagens para mostrá-lo enquanto o menino ia absorvendo aos poucos o que tinha pronunciado.
O pequeno quis perguntá-lo porque ele, dentre os garotos que conhecia, tinha sido escolhido para carregar o fardo de passar adiante uma história tão potente. Ele, com seu jeito tímido e seu corpo franzino, não apresentava nada de especial a oferecer a alguém. Entretanto, o velho tinha ido buscá-lo e a ninguém mais, o que em si já era confuso.
O velho o convenceu a ir com ele ao prometer que o traria de volta antes do amanhecer. O menino quis crer que ninguém ali sentiria realmente sua falta. Foi, então, levado àquela casa escondida no meio da noite, quando as câmeras normalmente estão transmitindo de forma aleatória a cada fração de hora. Imaginou, por isso, se o velho estava caduco ou se brincava com ele, já que parecia não haver câmeras no recinto, o que tornava estar ali bastante assustador.
O garoto ponderou sobre sua situação. Como não sabia como agir ou o que fazer, decidiu fazer diretamente todas aquelas perguntas ao velho, mas só conseguiu permanecer estático de medo. E se houvesse alguma câmera escondida? E se o velho o punisse por falar diretamente com ele?
Tinha muito receio de acidentalmente olhar nos olhos dele, pois já tinha aprendido que quando se olha nos olhos de alguém se pode ter a alma roubada. Não. Era preciso olhar para o outro apenas através da telinha, pois assim não se corria risco. Seus colegas tinham conhecido alguns Sem-Alma e lhe contaram como eram nojentos. Ele mesmo quase tinha tido sua alma roubada uma vez quando viu rapidamente os olhos de Raquela, sua irmã.
Ela estivera por muito tempo olhando diretamente para o rosto dele e por isso ele a reportou às autoridades. Aquela menina tinha quase acabado com a vida de ambos com aqueles olhos castanhos de barro e aquela proximidade irritante.
Contudo, lembrar de Raquela trazia-lhe certa dor. Muitas vezes, deitado à noite, pensava nela. Acreditava ter agido certo ao denunciá-la, mas supunha que aquilo o havia danificado para sempre. Tinha constantes pesadelos com os dois rindo e conversando diretamente um com o outro. Andavam de mãos dadas num lugar sem câmeras, sinais ou carros. O chão que pisavam era feito de um cimento verde macio e estavam cercados por aqueles alojamentos primitivos de animais, iguais aos que tinha visto no passeio feito ano passado ao Jardim Botânico. Então, não havia mais ninguém por perto a não ser os dois e Raquela chegava perto e o abraçava forte e...
O velho subitamente o arrancou desses pensamentos ao colocar outro vídeo daquela mulher. Ele a viu pela última uma vez andando desconsoladamente na chuva primaveral e se perguntou se ela quando pensava em Arnaud também teria sentido aquele mesmo aperto que ele tinha agora quando pensava na irmã. Será que ela também se perguntava o que aquilo poderia significar?
2 comentários:
Querida Catherine Sofia.
Adorei sua ficção. Seu talento para a narrativa não demonstra nenhuma falta de inspiração. Muito pelo contrário. Espero o "Quem não tem inspiração só consegue escrever prosa - 2" com ansiedade.
Aproveito para dar as boas-vindas ao singelo Mestrupe.
Um beijo da sua Lu ,.
Tati,
Vou começar pelo que, por se distanciar da afiada narração que se segue, mais me desagradou. O título, claro, que supõe que não há poesia na prosa. Besteira.
Prometo fazer uma leitura mais cuidadosa, mas ainda assim gostaria de transmitir essa primeira impressão.
Gosto bastante da meta-narrativa e acho que você conseguiu usá-la bem como pontuação no enredo se desenrola. Quando a coisa está parecendo tornar-se previsível, a introdução de um personagem (o Velho) quebra a estrutura diegética e dá novo gás à trama. Acho, inclusive, que você poderia fortalecer a construção desse personagem, grafando seu nome sempre com maiúscula.
Acredito também que você poderia apostar mais nessa dança entre as situações de diferentes personagens, inclusive partindo para análises e considerações próprias em cima dos casos - tal como o Kundera faz.
A última sugestão é bastante pessoal, pois trata-se de hábito meu. Costumeiramente, após escrever, eu dou aquela relida. E nesse volta ao texto ele invariavalmente enxuga brutalmente. Sempre dou essa podada, cortando palavras que julgo desnecessárias.
Acho que, talvez, se você tentar isso, o texto pode ganhar em ritmo. Mas, repetindo, trata-se de algo eminentemente pessoal.
Enfim, minhas boas-vindas também. :)
Beijo!
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